domingo, 4 de julho de 2010

A de Amor


Quando criança conheceu as letras. E lhe ensinaram que com elas podia-se formar qualquer palavra do mundo. Palavras que podiam representar qualquer coisa. Qualquer um que lesse a palavra, entenderia a mensagem. E foi então que ela se apaixonou.
Como podiam simples letrinhas organizadas representar qualquer coisa? Borboleta no céu. Flor aberta. Fruta docinha que escorre caldinho pelo canto da boca. Poderiam representar aquela dorzinha na barriga no final da tarde quando a mãe chamava pra jantar ou o peso nos olhos a noitinha quando terminava a novela e era hora de ir pra cama.
Naquele dia ela sonhou com letras felizes e saltitantes, brincando de roda, de mãos dadas e formando palavras. Riso. Sonho. Chuva. Calor. Escola. E sorria movendo-se na cama como se dançasse junto com as letrinhas.
E anos mais tarde foi para a escola pela primeira vez. O caderno impecável e os lápis cuidadosamente apontados. Ela já sabia ler e escrever tamanha a paixão que tinha pelas letras. E foi na escola que ela conheceu algo novo: que as palavras podiam cantar sem serem músicas. Aprendeu a rimar. Sol com girassol. Flor com beija-flor. Pomar com cantar. E nesse dia ela começou um jogo secreto onde ela via algo pelo caminho e pensava na palavra escrita com letra de mão bem desenhada e em seguida numa rima.
E desde essa época ela mantinha essa paixão pelas palavras. Plantou-as como se fossem sementes. Cultivava com literatura e gramáticas. Regava com pinceladas de língua estrangeira. Quis conhecer a origem de tudo, o radical e o prefixo. Fez frases complexas e completas, abusou de verbos, adjetivos e advérbios.
Numa tarde nublada, que as nuvens começavam a derramar pingos d’água que mais lembravam lágrimas, as palavras se multiplicaram e deram um lindo fruto: o primeiro poema dela.

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